Pedro Valdez
02/08/2026 08:00
Foto: Reprodução
Fonte: Diário do Pará
Aplicativos de transporte se tornam parte essencial da rotina de deslocamento em grandes cidades brasileiras, desafiando o transporte público e o trânsito, e transformando o mercado de trabalho.
O auxiliar de restaurante Jeferson Barros, 45 anos, resume um comportamento cada vez mais comum nas grandes cidades do Brasil. “Sempre que me atraso peço uma corrida. De onde moro até o meu trabalho dá uns R$ 25 a R$ 30 aí não dá pra usar todo dia. Se desse, eu preferia”, afirma. Morador de Icoaraci, distrito de Belém, ele percorre cerca de 30 quilômetros até a empresa onde trabalha.
“O problema do ônibus é a demora. Tem linha que leva quase uma hora pra passar. Aí, quando não dá, a gente chama o carro por aplicativo ou moto”, acrescenta.
A escolha de Jeferson revela uma transformação silenciosa na dinâmica urbana: os aplicativos de transporte deixaram de ser exceção e passaram a integrar a rotina de deslocamentos, especialmente em cidades com dificuldades históricas no transporte público.
“Não dá pra depender só de aplicativo, porque pesa no bolso. Mas também não dá pra depender só do ônibus”, diz o auxiliar.
Aplicativos crescem e mudam a forma de se deslocar
Esse movimento se reflete em escala nacional. Dados da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia indicam que cerca de 2,2 milhões de brasileiros obtêm renda por meio dessas plataformas, que também reúnem mais de 320 mil estabelecimentos comerciais parceiros e atendem cerca de 70 milhões de usuários em 1.600 municípios.
De acordo com o Sindicato Estadual dos Trabalhadores de App, o Pará tem cerca de 40 mil pessoas nesta modalidade, entre motoristas de carros, pilotos de motos e entregadores de bicicleta. Desse total, 25 mil estão na Região Metropolitana de Belém.
Para o presidente do Sistema Transporte (CNT, SEST SENAT e ITL), Vander Costa, o impacto não pode ser analisado de forma isolada.
“Os efeitos dos aplicativos variam conforme a forma como esses serviços são incorporados ao sistema de mobilidade urbana e, por isso, precisam ser analisados no contexto da mobilidade como um todo. A inovação precisa estar acompanhada de requisitos mínimos de segurança e de capacitação profissional, especialmente quando o serviço é realizado por motocicletas, atividade que demanda elevados padrões de segurança em razão dos riscos envolvidos”, afirma.
A avaliação da entidade parte de um dado concreto: parte dos usuários deixou o transporte coletivo.
“A Pesquisa CNT de Mobilidade da População Urbana mostra que, entre as pessoas que deixaram de utilizar totalmente ou reduziram o uso do ônibus, 18,2% passaram a utilizar serviços de transporte por aplicativos. Por outro lado, a pesquisa também confirma que o transporte público permanece essencial para a mobilidade urbana brasileira. Quase 80% das viagens de ônibus são realizadas por usuários das classes C e D/E, o que reforça seu papel social e a necessidade de investimentos permanentes para ampliar a qualidade, a eficiência e a acessibilidade do serviço”, destaca.
Mais veículos nas ruas desafiam o trânsito
Essa dualidade, entre o crescimento dos aplicativos e a permanência do transporte público como base, aparece com clareza nas ruas. O diretor-presidente do Instituto de Segurança Viária da Amazônia (ISVA), Rafael Cristo, resume o cenário como um equilíbrio instável.
“Por um lado, os aplicativos podem contribuir para reduzir o uso do carro próprio. Por outro, aumentam o fluxo de veículos nas vias, especialmente porque há motoristas circulando sem passageiros e deslocamentos adicionais para buscar usuários”, explica.
“Belém já tem um sistema viário sobrecarregado, com vias estreitas, crescimento urbano desordenado e uma frota que aumentou muito nos últimos anos. Quando você adiciona mais veículos circulando, mesmo que prestando serviço, isso inevitavelmente aparece no congestionamento”, acrescenta.
Outro ponto levantado por Cristo é o papel complementar, e não substituto, dos aplicativos.
“Os aplicativos não resolvem o problema estrutural da mobilidade urbana. Eles funcionam como uma alternativa, muitas vezes preenchendo lacunas deixadas pelo transporte público. Mas, se não houver investimento em transporte coletivo de qualidade, o sistema como um todo fica mais ineficiente”.
Ele reforça que a solução passa por integração.
“O caminho não é colocar um contra o outro, aplicativo contra ônibus. O ideal é pensar em um sistema integrado, em que diferentes modais se complementem. O aplicativo pode ser uma solução para o primeiro e o último trecho da viagem, por exemplo”.
Vander Costa também alerta para essa necessidade.
“A mobilidade urbana precisa ser pensada como um sistema integrado. Quando cada modal cresce de forma isolada, sem coordenação, o resultado tende a ser ineficiência e aumento dos custos para a sociedade”, diz.
Aplicativos também mudam o mercado de trabalho
Se na mobilidade os efeitos são ambíguos, no mercado de trabalho a transformação é ainda mais evidente. Os aplicativos se consolidaram como uma alternativa concreta de renda, muitas vezes marcada por longas jornadas e pouca proteção social.
Dados do IBGE mostram que cerca de 1,7 milhão de brasileiros têm nas plataformas sua principal fonte de renda, sendo que 53,1% atuam no transporte de passageiros. O perfil é relativamente homogêneo: homens jovens adultos, com ensino médio completo ou superior incompleto, que trabalham por conta própria e, na maioria dos casos, sem contribuição à Previdência.
A rotina desses trabalhadores confirma os números.
“Se rodar o dia todo, tiro uns R$ 450, mas gasto cerca de R$ 100 de combustível”, conta o motorista e eletricista Bruno Silva, de 24 anos.
Fonte: Diário do Pará
Link: https://diariodopara.com.br/belem/40-mil-paraenses-ja-vivem-de-aplicativos-veja-como-isso-mudou-as-cidades/